Um fato novo contornava o velho caminho e veio ao meu encontro como se fosse a primeira vez que isso acontecia... Velhos tempos e sonhos renovados pairavam entre as marquises da calçada cheia de passos errados e pessoas vazias. Parecia que era ontem, mas com um pouco de insistência poderia citar frases esquecidas do meu cotidiano. O brilho das luzes já desfazia o que ainda estava por construir e então o aceno se fez por entre as ruas mórbidas de tanto pesar. Não era a expectativa nem tão pouco o vento forte que contorcia aquela presença e aquela renúncia.
Foi assim que o dia terminou mais uma vez na resoluta convicção de que não era bem vindo. Então, por entre os olhares perdidos eis que surge em meu celular uma mensagem dizendo que a minha hora havia terminada. Era preciso esquecer a embriaguês e desfazer os equívocos, num pequeno estalido de dedos procurando alguém familiar e desconhecido do meu cotidiano. "Garcom, por favor, a conta!" E lá eu ia para a maratona dos compromissos, mesmo naquele finalzinho de sexta-feira, nas reflexões desamparadas e nas intermináveis soluções mirabolantes. Tudo era viável: a economia do país, as crises políticas, a fome pelo mundo, as descobertas científicas... Mas para quê, se não iria mais desfrutar nem sequer das mazelas do mundo... Acho que nunca vou saber o que será a falta de água, nem vou entender para que tantos combustíveis alternativos. A perspectiva iria corroer toda e qualquer viabilidade, todo os contratos estavam cumpridos, só me restava prosseguir ante o que faltava. Não havia, nem um ponto de apoio, nem pequenas ilusões... Tudo estava no deságio da própria vida, consumida pelos poucos e escassos devaneios que um dia nutriram os sonhos de prosperidade.
Levantei-me por entre as inúmeras cadeiras e mesas amontoadas e desorientadas pelos freqüentadores. O caminho estava descrito e os passos contados pelo plano da dissimulação. Apesar de estar um pouco atordoado, ainda não queria que isso ficasse caracterizado e então lentamente fui seguindo meu destino. Depois que chegasse em casa, estaria tudo terminado e o dia estaria finalmente livre da minha insanidade.
Calmamente manifestei minhas ações até o carro e dentro dele. Minha missão era buscar alguém que estava à espera, talvez de mim, talvez do conforto da carona. Não fazia muita diferença, pois certas coisas eram inquestionáveis, tal qual meus manifestos e minhas provas. Eu não era e nem seria muito diferente do motivo de todos. As pessoas se nivelam por baixo e eu estava incluso nessa amostra. A verdade é que fazia minha obrigação, mesmo que fosse do meu desejo cumprir o ritual da busca. Era uma justificativa para ir embora a permanecer à beira de uma mesa de infinitas cervejas e indecifráveis comportamentos. E os compromissos se remetiam em culpas e acusações, entre o que era prático e o que era relevante. Nada era importante, nem mesmo eu, nem mesmo quem me aguardava. Era simplesmente casual, rotineiro e mecânico. Como tudo que se passa pelo olhar acostumado. O vinho perde o sabor, as jóias perdem seu brilho e nós perdemos o paladar para certo sabores que a vida proporciona todos os dias.
Terminada a entrega, tal qual uma postagem do correio, sem diálogo e sem remorsos, prossegui no meu ritual repetitivo. Estava voltando ao meu canto...
Cheguei em casa e entreabri as janelas para refrescar um pouco do nada que se depositava na mesa da sala de jantar. Um pouco de tudo adentrava pela janela, da conversa dos vizinhos, dos insetos ludibriados pela luz, dos aromas e poluição que a rua me ofertava. A TV rigorosamente se contorcia no cumprimento de sua programação e eu me via refletido nessa tentativa louca de cumprir com os prazos e orçamentos estabelecidos para os grandes projetos empresariais e ao lado deles um esboço do planejamento que tentei fazer da minha vida. Um projeto inacabado e mal-estruturado. O tempo tratou de sepultar o que restava da vitalidade e dos sonhos de adolescente, que agora se revestia de fuga e controles de rotas, confundidos nos controles remotos da TV, do vídeo, do DVD, do som e assim por diante... Tudo estava sob controle, menos eu. Eu era um dos controles que alguém manipulava. E não haveria meios de resgatar isso, pois pior que lamentar o passado, estava o sequestro do futuro que se instalava feito um cobrador em busca de seus devedores. O que estava por acontecer já estava escrito e determinado. A escravatura estava de volta da pior forma possível... Ela era voluntária.
Segunda-feira começaria meu mais novo curso: "Análise fractal do comportamento gráfico em situações de turbulência de mercado"... Seriam apenas umas 180 horas, quase nada, perto dos MBAs que precisei fazer. Mas tudo é válido e justificável, afinal, alguém um dia disse sobre uma tal de paranóia e que ela me faria sobreviver no mundo cada vez mais competitivo. Mas eu sempre estive na vanguarda, eu era o melhor.
Amanhã começaria a aprender alemão. Tudo tinha suas compensações, com um pouco de sorte eu iria para a Alemanha no final do ano, coisa de quase 20 dias, mas não seriam férias, um aperfeiçoamento na língua e um curso promovido pela minha empresa... Um prêmio para os melhores, sem direito a acompanhante, no mais rigoroso e punitivo mérito que iria receber. Ficarei por lá em tempo integral - total dedicação - "um prêmio". E de quebra ainda conheceria a Walfgenftis mundial. Poderia ser pior, poderia ser no Caribe ou em qualquer outro paraíso... Aí eu lembraria da música do Djavan, algo como "morrer de sede em frente ao mar..."
De tudo isso, havia uma coisa maravilhosa que me confortava nos momentos difíceis... Eu era livre... Ironicamente livre para escolher tudo errado e fazer tudo do jeito que eles queriam e não como eu um dia sonhei. Era mais uma ironia que se acumulava em minhas anotações, um caderno quase todo tomado de momentos sarcásticos. Se eu era feliz, eu não tinha tanta certeza, mas ainda imaginava que valia a pena. Também não entendia porque eu fazia tudo que fazia, decidia tudo que decidia. Acho que no fundo era isso mesmo que eu queria, mesmo sem ser feliz, o importante era fazer o que a sociedade determinava, o que eu achava que a minha família precisava. Eu não fazia parte das regras dessa sociedade, eu era fruto dela, um esgoto de tudo que se inventava pelo mundo a fora. Coisas como a qualidade de vida, não sei de quem... Produtividade, competitividade, globalização, transnacionais... E pensar que a minha, minha empresa tinha um PIB maior que muitos países.
Hum... Minha empresa. Eu tinha tudo, era tudo e parecia que não tinha nada e não era nada. No fundo, eu sabia que se me deixasse esmorecer alguém mais jovem iria me substituir. Não havia memória naquele lugar, o presente é que importa, o futuro mesmo não sendo meu, eu determinava. Além de Deus, eles também me concediam o livre arbítrio... Até hoje tudo que fiz está muito bem remunerado em todas as minhas participações. Toda manhã eu acordava e decidia, se continuaria a usufruir de tudo mais uma vez, tal qual um homem que vendia sua alma por uns trocados. Só que neste caso, eu apenas alugo minhas horas da minha existência, amanhã se eu quiser, quebro o encanto e tudo volta a ser abóbora e eu retomo a minha insignificância e, quem sabe, se não estiver velho demais, viverei feliz para o que resta da minha vida...