sexta-feira, 29 de abril de 2011

Todo dia é dia da grande missão...

Edu encontrara um livro no qual se debruçara quase um dia para lê-lo, mas só deixou-o de lado quando terminou completamente.
Ficou intrigado com a mensagem do autor na capa. Na verdade, não havia entendido direito o sentido da frase. "Eis um teste para saber se a sua missão aqui na Terra está cumprida: se você está vivo, não está". Mas que coisa mais estranha, pensou. "Se eu estou vivo, não estou?".
- Pai, que pensamento é esse?
Seu pai explicara que não era "não estou" e sim, "não está". Enquanto você estiver vivo, sua missão não estará cumprida. "Ahhhh!".
Agora ele se imaginava em uma situação especial. Ele tinha uma missão aqui na Terra. Todos nós temos uma missão. Ninguém veio à toa ao mundo.
A vida trataria de mostrar que nossas missões não precisam ter uma repercussão mundial, talvez, nem para a cidade. Na verdade, o que importava nessa vida era ser especial para nós mesmos, aos olhos de Deus. Mas de qualquer forma, não há limites para a nossa capacidade de ser. E aos olhos de Deus só se pode ser especial se pudermos fazer a diferença para outro ser humano. Tornar melhor a vida de uma só pessoa bastaria.
Mas ele ficou imaginando algo diferente e aguardava ansiosamente quando Deus iria colocar em suas mãos a missão para qual seria designado.
Um dia Edu foi visitar sua tia na maternidade e conhecer seu mais novo primo.
Sentou-se à beira do leito e viu sua tia radiante com o mais novo membro da família. Percebeu na cabeceira da cama um pequeno envelope. "É uma carta de boas vindas à mais nova mamãe", disse ela, "pode ler...".
Ao pegar o envelope, viu que um coraçãozinho havia selado o envelope até a sua entrega. Nele estava escrito: "Todo dia é dia da grande missão".
E ele reservadamente conversou com Deus e disse: "entendi sua mensagem, meu Senhor. Obrigado".
Desde então seus olhos ficaram atentos a todos os fatos que aconteciam. A oportunidade de cumprir a missão daquele dia...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sutilezas... Fim de tarde...

Eu reabri meu final de tarde com o que restava de esperança de quem sabe encontrar a benção de um abraço apertado e recolhido de tantas intempéries que se pronunciavam feito tempestades no horizonte longínquo. Estava na hora de fazer as malas e partir sem o devido descanso e sem a digna despedida, mas fazia parte de um ritual, pouco comum é claro, mas eu tinha que fazer de conta, não pelo que se passava na minha mente, mas pelo que se passava aos olhos dos transeuntes. Era necessário que fosse sorrateiro, deveria trilhar entre os olhares estranhos para visualizar apenas o que era permitido. Precisava ser silencioso na boca e ensurdecedor nas sensações.
Conjugava o verbo... Eu faço de conta, tu fazes de conta, ela ou ele fazia de conta. Era uma brincadeira de escola a rasgar as aulas de português. Ficava tão indecifrável que às vezes me esquecia o significado do mistério, mas era óbvio e sem mais nem menos tudo voltava à clareza, só para mim em meio a tanto dissimular.
Eu esperava que reacendesse novamente a chama que iluminava o meu dia e todas as outras motivações e idéias que passavam pelos meus pensamentos. Mas não era possível. Não eram delírios, eram fatos reais que se entrelaçavam à minha capacidade imaginativa. Éramos parte integrante de uma sociedade secreta, sem olhares, sem código, sem indiscrições e como se fosse um grande baile, apenas as faces escondidas sob as máscaras a convencer que éramos estranhos, a ponto de se enganar completamente.
Os sentidos iam fenecendo como escureciam as esperanças. E um tom de adeus parecia ecoar entre as paredes da sala. Era o fim do ritual. Não existiriam mais artimanhas.
Em breve, amanhecer passaria a ser um fato comum outra vez, como eram antigamente. A vida retomava o seu curso. As palavras e os gestos perdiam sentido, contudo, ficariam cicatrizes sem sequelas, apenas sentidas no frio da saudade que começava a soprar sua brisa, naquele fim de tarde.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sutilezas... Tormentas...

Aquele homem descia todas as tardes até aquele pedaço de mar que se adentrava entre as pedras e contemplava aquele céu já quase negro, na qual o restante de luz do dia rebatia em suas costas.
Sentava-se em uma pedra, acho que era sempre a mesma, e se perdia por horas, naquele vento batendo em seu rosto. O olhar distante, fixos naquele horizonte calmo, como quem aguardasse um velho reencontro.
Ele não gostava de calmarias. Na verdade, relembrava com saudades aquelas noites de tormenta, nas quais o mar se agitava revolto, invocando um medo aflitivo, denso e imprevisível.
Naquele passado, ficara noites e noites observando e vivenciando uma tempestade incomum naquela costa, na qual as águas vinham com fúria e ali naquele recanto sentia-se como se estivesse à beira de um tsunami.
Era uma loucura, uma vocação, um hobby, qualquer coisa. Para ele era um prazer e normal. Alguns gostavam de filmes de terror, outros de esportes radicais. Tinha fila para montanha-russa, porque não haveria um doido para amar as tempestades.
A verdade é que a tempestade veio, permaneceu por dias e dias e depois se foi. Quem viu de tão perto como ele, que vivenciou cada gota de chuva, cada onda se quebrando nas rochas e escutar aquele som ensurdecedor, como se tudo estivesse para ser atirado ao longe, agora, admirava aquela água calma e longínqua, como se nunca houvesse existido algo tão vivo e violento naquele mesmo lugar.
Foi-se o vento, foram se as ondas, sem nenhum vestígio. Para ele ficaram apenas as boas lembranças, as fortes emoções e o vento calmo a envolver sua face. Reunia os braços em torno de si como se tentasse receber um abraço invisível como quem recebe alguém muito querido de volta para o lar.
Ele não ia somente para recordar... Ele tinha dentro de si uma esperança de que as noites de fúria voltassem novamente, qualquer dia quem sabe...