Eu reabri meu final de tarde com o que restava de esperança de quem sabe encontrar a benção de um abraço apertado e recolhido de tantas intempéries que se pronunciavam feito tempestades no horizonte longínquo. Estava na hora de fazer as malas e partir sem o devido descanso e sem a digna despedida, mas fazia parte de um ritual, pouco comum é claro, mas eu tinha que fazer de conta, não pelo que se passava na minha mente, mas pelo que se passava aos olhos dos transeuntes. Era necessário que fosse sorrateiro, deveria trilhar entre os olhares estranhos para visualizar apenas o que era permitido. Precisava ser silencioso na boca e ensurdecedor nas sensações.
Conjugava o verbo... Eu faço de conta, tu fazes de conta, ela ou ele fazia de conta. Era uma brincadeira de escola a rasgar as aulas de português. Ficava tão indecifrável que às vezes me esquecia o significado do mistério, mas era óbvio e sem mais nem menos tudo voltava à clareza, só para mim em meio a tanto dissimular.
Eu esperava que reacendesse novamente a chama que iluminava o meu dia e todas as outras motivações e idéias que passavam pelos meus pensamentos. Mas não era possível. Não eram delírios, eram fatos reais que se entrelaçavam à minha capacidade imaginativa. Éramos parte integrante de uma sociedade secreta, sem olhares, sem código, sem indiscrições e como se fosse um grande baile, apenas as faces escondidas sob as máscaras a convencer que éramos estranhos, a ponto de se enganar completamente.
Os sentidos iam fenecendo como escureciam as esperanças. E um tom de adeus parecia ecoar entre as paredes da sala. Era o fim do ritual. Não existiriam mais artimanhas.
Em breve, amanhecer passaria a ser um fato comum outra vez, como eram antigamente. A vida retomava o seu curso. As palavras e os gestos perdiam sentido, contudo, ficariam cicatrizes sem sequelas, apenas sentidas no frio da saudade que começava a soprar sua brisa, naquele fim de tarde.
Nenhum comentário:
Postar um comentário