Eu às vezes me perco naquele infinito que é a submersão em meus pensamentos. Não estou a procura de nada, mas sinto que encontrei algo muito precioso e estou apenas admirando o brilho que aquele curto tempo de vida resgatou.
Não tenho ideia de quanto ou como isso se fez. É apenas a fé, pela qual parece que interagimos com Deus. Aquela coisa dos filmes, de fechar os olhos e sentir tudo que está a sua volta, e perceber tudo aquilo que não enxergamos acordados ou envolvidos no nosso cotidiano.
É preciso uma pausa para poder despertar, é necessário silêncio para poder escutar o que não temos tempo. Tudo que não parece ser importante, mas é.
Esses momentos são curtos e sinto que serão breves. Basta um abraço, um carinho e tudo parece ser o melhor lugar do mundo. O resgate não está feito, mas está em curso. Vemos um espaço aqui, uma clareira lá, um olho de furacão fazendo sua calmaria entre os absurdos que o meu trabalho, tão lógico, tão estabelecido, definido, importante e inestimável, proporciona a tal ponto que deixaria qualquer previsão do tempo perplexa, ante a fúria que determina cada dia que acordo, ou cada noite que não durmo. Parecemos importantes para o mundo, para o país, para os familiares. Mas ao mesmo tempo, esses mesmos familiares sentem que não tem tanto valor para aquele que é importante para todo o restante da humanidade.
Essa talvez seja a grande causa de uma depressão aqui e outra acolá. Afinal, em algum momento nos damos conta que construímos uma história que não vai ser escrita. Mas eu escrevi muitas páginas. E daí? Não serão lidas. Serão envelhecidas e com muita sorte, pode ser que alguém dali centenas de anos encontre os escombros de uma pirâmide de conhecimento, de realizações e acrescente a eles um valor histórico.
Acho que é altruísmo demais você renegar o abraço deste momento e entrar para um futuro que irá abraçá-lo e você não vai mais estar aqui para sentir. Será que se sobrevivêssemos a esse fardo, seríamos mais realizados? Imagine que é preciso ser abnegado, destituído de família, desprovido de amor e por fim esquecido. Tudo como se fosse o herói de Jornada nas Estrelas: "As necessidades de muitos superam as necessidades de poucos ou um".
Houve um momento em que eu precisei tomar uma decisão difícil em relação a essa missão. Talvez eu fosse igual ao Messias, do livro Ilusões. E eu desisti de todas as ambições nas quais eu quis ou quiseram me prender. Então, deixei de ser médico, de ser aquele que iria acabar com as doenças do mundo, que seria muito rico e poderia ter uma fundação, que auxiliaria todas as pessoas, muitos povos e muitos países. E as soluções para os problemas só ficaram nas mesas de bar, mas confesso que ainda que nenhum deles tenha se realizado, fui generoso, ao ponto de deixar a glória para os demais habitantes da Terra. Eu me despi de toda a vaidade e isso me tornou uma pessoa extremamente realizada e feliz.
Feliz ao ponto de poder reencontrar com a minha mãe, já no final de sua vida, apesar de que ela ainda deve ter muitos anos pela frente. Mas é tão bom chegar com a minha complexidade, minhas milhares de linhas de programação em uma linguagem que pouco sentido faz para a maioria dos seres humanos, diante da simplicidade dessa senhora de quase noventa anos. Ela nem está aí, se eu utilizo inteligência artificial para chegar às mais inóspitas soluções, para responder aos questionamentos mais intrincados e inintelegíveis.
Ao vê-la assim, eu fico curioso em saber quanto do que já foi minha mãe ainda persiste naquele ser. Uma pessoa repetitiva, contando sempre as mesmas histórias. Acho que temos um problema de hardware e de software, que não tem muito o que fazer, mas enquanto ainda realiza muitas coisas, eu penso que estamos no lucro. Não posso querer tudo, nem devo pedir mais nada. Existe um tempo para cada coisa e algumas coisas o tempo carregou, mas é importante presenciar o jogo, com as peças que ainda estão no tabuleiro.
Aquela pessoa que ali está é a fotografia de uma partida de xadrez após, eu diria, pelo menos, cinquenta lances. E preciso comemorar, o jogo ainda não terminou e podemos apreciar cada lance que a vida me permite movimentar. E isso faz meus olhos brilharem. Sempre posso descobrir algo novo e recuperar os lances passados. Compreender porque chegamos até aqui e de que maneira isso foi construído.
Talvez eu queira muito. E aí o tempo me ensine mais uma lição. Não importa o passado, nem importa se ela se lembra do que fez ontem. O que importa é saber se quando o instante acontece, ela vive esse momento. Se isso preenche seu espaço.
Quando eu mergulho em meu trabalho, acho que não somos muito diferentes, pois minha memória não se preenche com as minhas realizações. Eu realizei muito para o mundo, não para aqueles que por mim se importam. Meu trabalho não pede um abraço. Pede números, resultados. Se me perguntarem se eu me lembro de ter visitado um amigo ontem, se eu lembro de ter abraçado minha mãe, vou dizer não. Porque essas coisas não aconteceram e nem tenho lembrança disso.
Por outro, se perguntarem para a minha mãe se ela se lembra de ter me abraçado ontem, ela não vai lembrar ainda que isso tenha acontecido. Mas vai abraçar-me hoje com o mesmo carinho e viver esse momento, como um ser humano sente ou deveria sentir. E provavelmente irá esquecer amanhã. Mas não importa. Nesse ponto reside a diferença fundamental entre nossas escolhas.
Amanhã nenhum de nós irá se lembrar do abraço, porque eu escolhi trabalhar e não a abracei, e ela porque esqueceu. E hoje, seu eu continuar na minha roda-viva, não vou viver o meu abraço, porque estou no meu trabalho e com toda a minha memória preservada, mas ela poderá viver o abraço, ainda que vá esquecer.
Escolher abraçar é importante, ainda que amanhã, caia no esquecimento.
A comunicação é universal, um abraço, um beijo, sem complicação, sem burocracias. Nenhuma rede de internet, nenhum aplicativo. Tudo on demand, ad-hoc, presencial.
Minha mãe ficou longe, distante e sem comunicação, durante muito tempo. Agora está ao alcance de um abraço. Ela não foi antes do tempo, não antes de eu poder reencontrá-la. E isso é uma benção! Uma Graça!
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