Eu me desviei de algumas ilhas que estavam no caminho. O problema não eram as ilhas, mas o que o leito daquele pedaço de mar deixava escondido. Foram anos e anos passando por aqueles caminhos, aprendendo o quanto uma viagem como aquela poderia representar de perigo. Maré alta, maré baixa, ventos e tempestades, tudo fazia parte das minhas lembranças de quando aprendia o ofício com meu pai. O que mais me fascinava era a transposição que ele fazia do mar com a vida, principalmente quando ele levantava âncora e falava sobre a viagem e profetizava sobre a vida que eu iria viver. Ele mal completara seus estudos, mas era muito sábio, hoje eu sei, e me contava coisas e histórias sobre tudo. Ele tinha livros e livros, que hoje guardo, dos quais devo ter lido pouco menos que a metade. Parece que o tempo não passava para ele. Aliás, naquele tempo parece que só eu crescia. Eu não conseguia ver isso em minha família. Até que um dia, meu pai padeceu e eu percebi o quanto ele havia envelhecido. Depois disso, não tive muito mais tempo de vivê-lo com toda a intensidade que gostaria. Não me lembro bem, mas devem ter sido somente mais alguns meses até que ele se fosse.
Minha mãe ainda ficou ao meu lado por longos anos, mas ela era silenciosa, não contava histórias, sua vida foi dedicada a mim e aos meus irmãos. Ela já não era tão jovem, mas para mim ainda era muito bela e era muito carinhosa. O que meu pai tinha em palavras, ela tinha em gestos, para nós todos.
Eu precisava prosseguir e fazer de cada viagem uma oportunidade. Não existem portos seguros para embarcações paradas. O que nos envelhece é deixar o barco largado em um porto seguro qualquer. As viagens, por mais perigosas que fossem, traziam consigo a necessidade de manter o controles funcionando perfeitamente, fazer as manutenções necessárias, sempre alerta a qualquer ruído estranho.
Foi exatamente em uma dessas viagens tempestuosas que um único livro caiu da pequena estante em uma página que deveria ter sido marcada por meu pai em algum tempo remoto. Nele havia um mapa e fotos de um verdadeiro paraíso. Do lado, uma anotação: "Meu primeiro sonho...".
Nas páginas seguintes se encontrava uma foto de nossa família, meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos. No verso a anotação: "Meu sonho realizado...".
Eu me despedi de minha mãe e meus irmãos e de mapa em punho, coloquei-me rumo ao paraíso descrito por meu pai. Em mares que eu desconhecia, para quem sabe um dia ter histórias para contar.
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