Era quase meia-noite quando eu passei por uma rua soturna. Nada mais dava sinal de vida, até as luzes dos postes estavam apagadas e não se reconhecia nada por trás das sombras que ali vagavam. A não ser por um simples colorido... Aquele intrigante semáforo ainda persistia em funcionar, quando os demais já haviam parado de funcionar e como lâmpadas que prenunciavam o Natal, piscavam alegremente.
Mas que azar, além de ser um semáforo um tanto quanto inoportuno ainda fechou-se rapidamente. Eis que a luz vermelha se apresentava nitidamente e eu teria tempo suficiente para parar, mas prudencialmente não me senti no conforto de aguardar até que o verde me permitisse retomar o meu caminho.
Vagarosamente fui, mas sem parar, até a esquina e quando já vislumbrava da certeza de que não havia mais veículos naquele cruzamento, prossegui como se tudo fosse permitido.
Atrás de mim acompanhou-me um outro veículo. E só então, ao ultrapassar-me, percebi que se tratava de um veículo da polícia, que vagarosamente passou ao meu lado e depois de me identificar visualmente seguiu o seu caminho.
Eis que não tardou, após quase um mês, eu surpreendentemente receber uma multa por avançar o sinal vermelho à noite em um lugar qualquer daquela cidade. E então me lembrei daquele dia inusitado... Eu e um carro da polícia passamos o sinal vermelho e sem receber sequer uma autuação fui multado, por cometer uma infração, que convenhamos sabia que estava errado. Justo eu que costumava fazer as coisas certas, dentro da lei, mas naquele momento fiquei com medo. Havia tantos boatos de assalto nos semáforos.
Mas tudo bem, apesar da indignação, não achava que havia feito algo errado, porém, a multa não foi injusta. Só imaginava que não deveria haver nenhum guarda visível cuidando daquela esquina e acreditava que deveria ser o carro da polícia que me multou. Mas será que ele aplicou multa a ele próprio. Pois não foi só eu quem avançou o sinal.
Mas tudo bem. Agora são águas passadas e havia aprendido com a lição...
Eis que então, outra noite, voltando de uma festa, novamente, em outra rua qualquer, estava lá o semáforo, teimosamente cumprindo o seu ofício... E para meu azar, novamente ele se fechara momentos antes de eu chegar à esquina. Dessa vez, prudentemente eu parei. Olhei em volta e aparentemente não vi vulto algum. E então, quando pensei em relaxar, surge uma moto ao meu lado. Quebraram o vidro de trás e apontaram-me uma arma. Gritavam que era um assalto, que eu não fizesse nenhuma gracinha e passasse a carteira.
Posso dizer que por sorte, pois eles não quiseram o carro e estavam com pressa, só queriam dinheiro. Abriram a carteira e sacaram o dinheiro, jogaram o resto fora e sumiram...
Moral da história:
"Um policial para te multar existe a qualquer hora do dia ou da noite em qualquer lugar que você esteja no momento em que um cidadão de bem cometer algum deslize.
Não vai haver um policial para te proteger na hora de um assalto, a qualquer hora do dia ou da noite em qualquer lugar, no momento em que um cidadão de bem estiver sendo vítima..."
Contos e crônicas cotidianas são trechos, momentos, aventuras, enfim, assuntos da vida moderna ou devaneios improváveis, às vezes, futuristas ou um tanto quanto surrealistas.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
A Viagem...
Eu me desviei de algumas ilhas que estavam no caminho. O problema não eram as ilhas, mas o que o leito daquele pedaço de mar deixava escondido. Foram anos e anos passando por aqueles caminhos, aprendendo o quanto uma viagem como aquela poderia representar de perigo. Maré alta, maré baixa, ventos e tempestades, tudo fazia parte das minhas lembranças de quando aprendia o ofício com meu pai. O que mais me fascinava era a transposição que ele fazia do mar com a vida, principalmente quando ele levantava âncora e falava sobre a viagem e profetizava sobre a vida que eu iria viver. Ele mal completara seus estudos, mas era muito sábio, hoje eu sei, e me contava coisas e histórias sobre tudo. Ele tinha livros e livros, que hoje guardo, dos quais devo ter lido pouco menos que a metade. Parece que o tempo não passava para ele. Aliás, naquele tempo parece que só eu crescia. Eu não conseguia ver isso em minha família. Até que um dia, meu pai padeceu e eu percebi o quanto ele havia envelhecido. Depois disso, não tive muito mais tempo de vivê-lo com toda a intensidade que gostaria. Não me lembro bem, mas devem ter sido somente mais alguns meses até que ele se fosse.
Minha mãe ainda ficou ao meu lado por longos anos, mas ela era silenciosa, não contava histórias, sua vida foi dedicada a mim e aos meus irmãos. Ela já não era tão jovem, mas para mim ainda era muito bela e era muito carinhosa. O que meu pai tinha em palavras, ela tinha em gestos, para nós todos.
Eu precisava prosseguir e fazer de cada viagem uma oportunidade. Não existem portos seguros para embarcações paradas. O que nos envelhece é deixar o barco largado em um porto seguro qualquer. As viagens, por mais perigosas que fossem, traziam consigo a necessidade de manter o controles funcionando perfeitamente, fazer as manutenções necessárias, sempre alerta a qualquer ruído estranho.
Foi exatamente em uma dessas viagens tempestuosas que um único livro caiu da pequena estante em uma página que deveria ter sido marcada por meu pai em algum tempo remoto. Nele havia um mapa e fotos de um verdadeiro paraíso. Do lado, uma anotação: "Meu primeiro sonho...".
Nas páginas seguintes se encontrava uma foto de nossa família, meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos. No verso a anotação: "Meu sonho realizado...".
Eu me despedi de minha mãe e meus irmãos e de mapa em punho, coloquei-me rumo ao paraíso descrito por meu pai. Em mares que eu desconhecia, para quem sabe um dia ter histórias para contar.
Minha mãe ainda ficou ao meu lado por longos anos, mas ela era silenciosa, não contava histórias, sua vida foi dedicada a mim e aos meus irmãos. Ela já não era tão jovem, mas para mim ainda era muito bela e era muito carinhosa. O que meu pai tinha em palavras, ela tinha em gestos, para nós todos.
Eu precisava prosseguir e fazer de cada viagem uma oportunidade. Não existem portos seguros para embarcações paradas. O que nos envelhece é deixar o barco largado em um porto seguro qualquer. As viagens, por mais perigosas que fossem, traziam consigo a necessidade de manter o controles funcionando perfeitamente, fazer as manutenções necessárias, sempre alerta a qualquer ruído estranho.
Foi exatamente em uma dessas viagens tempestuosas que um único livro caiu da pequena estante em uma página que deveria ter sido marcada por meu pai em algum tempo remoto. Nele havia um mapa e fotos de um verdadeiro paraíso. Do lado, uma anotação: "Meu primeiro sonho...".
Nas páginas seguintes se encontrava uma foto de nossa família, meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos. No verso a anotação: "Meu sonho realizado...".
Eu me despedi de minha mãe e meus irmãos e de mapa em punho, coloquei-me rumo ao paraíso descrito por meu pai. Em mares que eu desconhecia, para quem sabe um dia ter histórias para contar.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
O reencontro...
Havia dias que não a via... Na verdade, tinha evitado encontrá-la por uns tempos. Talvez temeroso, talvez inseguro, queria manter uma certa distância. Sentia-se mal toda vez que a encontrava. Suas lembranças não eram muito felizes nos últimos tempos, isso, quando se viam.
Precisava dar um tempo e respirar um pouco, em paz consigo mesmo... Mesmo tendo a certeza que não estava tudo bem.
Precisava colocar a cabeça no lugar e retomar tudo que abandonara até então. Como sempre repetia... "O segredo dos que triunfam é começar tudo outra vez".
Mesmo assim, não se importava muito com as consequências. Parecia que em alguns instantes o amor próprio lhe faltava. Sentia-se acuado e pressionado por ela. Ela não deveria controlá-lo tanto, mas mesmo assim se submetia aos seus caprichos, vez por outra, como forma de controlar a sua compulsividade. Apesar de atormentado, ele tinha certeza que ela era muito mais um bem que um mal necessário. Tinha consciência também de que ela não fazia por mal, simplesmente cumpria com suas obrigações, indiferente aos seus sentimentos. Ela era simplesmente fria, calculista e cruel. Apenas refletia exatamente o que ele era. E por mais que ela fizesse, no fim, ele sempre assumia a culpa por tudo e tudo passava a lhe pesar nos ombros... "Que vida ingrata, que sina !". Ele estava indignado...
De qualquer forma, cedo ou tarde, ela estaria novamente aos seus pés. Ele sabia onde e quando encontrá-la. Era um jeito de instaurar sua vingança ante a opressão a que era submetido. Fazer de conta que mantinha controle da situação, diante de quem o dominava pelo medo. Sentia-se triste e frustrado por toda aquela absurda humilhação. Ela jamais o abandonaria e mesmo que ele a deixasse, outras viriam em seu lugar a produzir-lhe as mesmas sensações. Era uma predestinação, que se agravava ano após ano.
Nos últimos tempos fez todos os abusos que podia e desejava, ficou de bar em bar, até altas horas da noite. Então, há algumas semanas, repentinamente, depois de tudo, redimiu-se, mudou do vinho para a água. Nos últimos dias, estava quietinho e sossegado em seu canto, como se nada tivesse acontecido. Talvez fosse aquela visita ao cardiologista ou sei lá o quê... Não se sabe exatamente.
Voltou, de cara limpa e cinicamente foi ao seu encontro. E ela como era de se esperar, estava fielmente aos seus pés... Paradoxalmente, ele estava novamente feliz e aliviado. Ele, insolentemente, mirava-lhe diretamente com seus olhos. Ela por sua vez se mantinha apática aos seus sentimentos. Ele perdera três quilos... Sorriu e chutou-a de volta para debaixo do armário do banheiro. Talvez quisesse vê-la novamente daqui a alguns dias...
Precisava dar um tempo e respirar um pouco, em paz consigo mesmo... Mesmo tendo a certeza que não estava tudo bem.
Precisava colocar a cabeça no lugar e retomar tudo que abandonara até então. Como sempre repetia... "O segredo dos que triunfam é começar tudo outra vez".
Mesmo assim, não se importava muito com as consequências. Parecia que em alguns instantes o amor próprio lhe faltava. Sentia-se acuado e pressionado por ela. Ela não deveria controlá-lo tanto, mas mesmo assim se submetia aos seus caprichos, vez por outra, como forma de controlar a sua compulsividade. Apesar de atormentado, ele tinha certeza que ela era muito mais um bem que um mal necessário. Tinha consciência também de que ela não fazia por mal, simplesmente cumpria com suas obrigações, indiferente aos seus sentimentos. Ela era simplesmente fria, calculista e cruel. Apenas refletia exatamente o que ele era. E por mais que ela fizesse, no fim, ele sempre assumia a culpa por tudo e tudo passava a lhe pesar nos ombros... "Que vida ingrata, que sina !". Ele estava indignado...
De qualquer forma, cedo ou tarde, ela estaria novamente aos seus pés. Ele sabia onde e quando encontrá-la. Era um jeito de instaurar sua vingança ante a opressão a que era submetido. Fazer de conta que mantinha controle da situação, diante de quem o dominava pelo medo. Sentia-se triste e frustrado por toda aquela absurda humilhação. Ela jamais o abandonaria e mesmo que ele a deixasse, outras viriam em seu lugar a produzir-lhe as mesmas sensações. Era uma predestinação, que se agravava ano após ano.
Nos últimos tempos fez todos os abusos que podia e desejava, ficou de bar em bar, até altas horas da noite. Então, há algumas semanas, repentinamente, depois de tudo, redimiu-se, mudou do vinho para a água. Nos últimos dias, estava quietinho e sossegado em seu canto, como se nada tivesse acontecido. Talvez fosse aquela visita ao cardiologista ou sei lá o quê... Não se sabe exatamente.
Voltou, de cara limpa e cinicamente foi ao seu encontro. E ela como era de se esperar, estava fielmente aos seus pés... Paradoxalmente, ele estava novamente feliz e aliviado. Ele, insolentemente, mirava-lhe diretamente com seus olhos. Ela por sua vez se mantinha apática aos seus sentimentos. Ele perdera três quilos... Sorriu e chutou-a de volta para debaixo do armário do banheiro. Talvez quisesse vê-la novamente daqui a alguns dias...
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Todo dia é dia da grande missão...
Edu encontrara um livro no qual se debruçara quase um dia para lê-lo, mas só deixou-o de lado quando terminou completamente.
Ficou intrigado com a mensagem do autor na capa. Na verdade, não havia entendido direito o sentido da frase. "Eis um teste para saber se a sua missão aqui na Terra está cumprida: se você está vivo, não está". Mas que coisa mais estranha, pensou. "Se eu estou vivo, não estou?".
- Pai, que pensamento é esse?
Seu pai explicara que não era "não estou" e sim, "não está". Enquanto você estiver vivo, sua missão não estará cumprida. "Ahhhh!".
Agora ele se imaginava em uma situação especial. Ele tinha uma missão aqui na Terra. Todos nós temos uma missão. Ninguém veio à toa ao mundo.
A vida trataria de mostrar que nossas missões não precisam ter uma repercussão mundial, talvez, nem para a cidade. Na verdade, o que importava nessa vida era ser especial para nós mesmos, aos olhos de Deus. Mas de qualquer forma, não há limites para a nossa capacidade de ser. E aos olhos de Deus só se pode ser especial se pudermos fazer a diferença para outro ser humano. Tornar melhor a vida de uma só pessoa bastaria.
Mas ele ficou imaginando algo diferente e aguardava ansiosamente quando Deus iria colocar em suas mãos a missão para qual seria designado.
Um dia Edu foi visitar sua tia na maternidade e conhecer seu mais novo primo.
Sentou-se à beira do leito e viu sua tia radiante com o mais novo membro da família. Percebeu na cabeceira da cama um pequeno envelope. "É uma carta de boas vindas à mais nova mamãe", disse ela, "pode ler...".
Ao pegar o envelope, viu que um coraçãozinho havia selado o envelope até a sua entrega. Nele estava escrito: "Todo dia é dia da grande missão".
E ele reservadamente conversou com Deus e disse: "entendi sua mensagem, meu Senhor. Obrigado".
Desde então seus olhos ficaram atentos a todos os fatos que aconteciam. A oportunidade de cumprir a missão daquele dia...
Ficou intrigado com a mensagem do autor na capa. Na verdade, não havia entendido direito o sentido da frase. "Eis um teste para saber se a sua missão aqui na Terra está cumprida: se você está vivo, não está". Mas que coisa mais estranha, pensou. "Se eu estou vivo, não estou?".
- Pai, que pensamento é esse?
Seu pai explicara que não era "não estou" e sim, "não está". Enquanto você estiver vivo, sua missão não estará cumprida. "Ahhhh!".
Agora ele se imaginava em uma situação especial. Ele tinha uma missão aqui na Terra. Todos nós temos uma missão. Ninguém veio à toa ao mundo.
A vida trataria de mostrar que nossas missões não precisam ter uma repercussão mundial, talvez, nem para a cidade. Na verdade, o que importava nessa vida era ser especial para nós mesmos, aos olhos de Deus. Mas de qualquer forma, não há limites para a nossa capacidade de ser. E aos olhos de Deus só se pode ser especial se pudermos fazer a diferença para outro ser humano. Tornar melhor a vida de uma só pessoa bastaria.
Mas ele ficou imaginando algo diferente e aguardava ansiosamente quando Deus iria colocar em suas mãos a missão para qual seria designado.
Um dia Edu foi visitar sua tia na maternidade e conhecer seu mais novo primo.
Sentou-se à beira do leito e viu sua tia radiante com o mais novo membro da família. Percebeu na cabeceira da cama um pequeno envelope. "É uma carta de boas vindas à mais nova mamãe", disse ela, "pode ler...".
Ao pegar o envelope, viu que um coraçãozinho havia selado o envelope até a sua entrega. Nele estava escrito: "Todo dia é dia da grande missão".
E ele reservadamente conversou com Deus e disse: "entendi sua mensagem, meu Senhor. Obrigado".
Desde então seus olhos ficaram atentos a todos os fatos que aconteciam. A oportunidade de cumprir a missão daquele dia...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Sutilezas... Fim de tarde...
Eu reabri meu final de tarde com o que restava de esperança de quem sabe encontrar a benção de um abraço apertado e recolhido de tantas intempéries que se pronunciavam feito tempestades no horizonte longínquo. Estava na hora de fazer as malas e partir sem o devido descanso e sem a digna despedida, mas fazia parte de um ritual, pouco comum é claro, mas eu tinha que fazer de conta, não pelo que se passava na minha mente, mas pelo que se passava aos olhos dos transeuntes. Era necessário que fosse sorrateiro, deveria trilhar entre os olhares estranhos para visualizar apenas o que era permitido. Precisava ser silencioso na boca e ensurdecedor nas sensações.
Conjugava o verbo... Eu faço de conta, tu fazes de conta, ela ou ele fazia de conta. Era uma brincadeira de escola a rasgar as aulas de português. Ficava tão indecifrável que às vezes me esquecia o significado do mistério, mas era óbvio e sem mais nem menos tudo voltava à clareza, só para mim em meio a tanto dissimular.
Eu esperava que reacendesse novamente a chama que iluminava o meu dia e todas as outras motivações e idéias que passavam pelos meus pensamentos. Mas não era possível. Não eram delírios, eram fatos reais que se entrelaçavam à minha capacidade imaginativa. Éramos parte integrante de uma sociedade secreta, sem olhares, sem código, sem indiscrições e como se fosse um grande baile, apenas as faces escondidas sob as máscaras a convencer que éramos estranhos, a ponto de se enganar completamente.
Os sentidos iam fenecendo como escureciam as esperanças. E um tom de adeus parecia ecoar entre as paredes da sala. Era o fim do ritual. Não existiriam mais artimanhas.
Em breve, amanhecer passaria a ser um fato comum outra vez, como eram antigamente. A vida retomava o seu curso. As palavras e os gestos perdiam sentido, contudo, ficariam cicatrizes sem sequelas, apenas sentidas no frio da saudade que começava a soprar sua brisa, naquele fim de tarde.
Conjugava o verbo... Eu faço de conta, tu fazes de conta, ela ou ele fazia de conta. Era uma brincadeira de escola a rasgar as aulas de português. Ficava tão indecifrável que às vezes me esquecia o significado do mistério, mas era óbvio e sem mais nem menos tudo voltava à clareza, só para mim em meio a tanto dissimular.
Eu esperava que reacendesse novamente a chama que iluminava o meu dia e todas as outras motivações e idéias que passavam pelos meus pensamentos. Mas não era possível. Não eram delírios, eram fatos reais que se entrelaçavam à minha capacidade imaginativa. Éramos parte integrante de uma sociedade secreta, sem olhares, sem código, sem indiscrições e como se fosse um grande baile, apenas as faces escondidas sob as máscaras a convencer que éramos estranhos, a ponto de se enganar completamente.
Os sentidos iam fenecendo como escureciam as esperanças. E um tom de adeus parecia ecoar entre as paredes da sala. Era o fim do ritual. Não existiriam mais artimanhas.
Em breve, amanhecer passaria a ser um fato comum outra vez, como eram antigamente. A vida retomava o seu curso. As palavras e os gestos perdiam sentido, contudo, ficariam cicatrizes sem sequelas, apenas sentidas no frio da saudade que começava a soprar sua brisa, naquele fim de tarde.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Sutilezas... Tormentas...
Aquele homem descia todas as tardes até aquele pedaço de mar que se adentrava entre as pedras e contemplava aquele céu já quase negro, na qual o restante de luz do dia rebatia em suas costas.
Sentava-se em uma pedra, acho que era sempre a mesma, e se perdia por horas, naquele vento batendo em seu rosto. O olhar distante, fixos naquele horizonte calmo, como quem aguardasse um velho reencontro.
Ele não gostava de calmarias. Na verdade, relembrava com saudades aquelas noites de tormenta, nas quais o mar se agitava revolto, invocando um medo aflitivo, denso e imprevisível.
Naquele passado, ficara noites e noites observando e vivenciando uma tempestade incomum naquela costa, na qual as águas vinham com fúria e ali naquele recanto sentia-se como se estivesse à beira de um tsunami.
Era uma loucura, uma vocação, um hobby, qualquer coisa. Para ele era um prazer e normal. Alguns gostavam de filmes de terror, outros de esportes radicais. Tinha fila para montanha-russa, porque não haveria um doido para amar as tempestades.
A verdade é que a tempestade veio, permaneceu por dias e dias e depois se foi. Quem viu de tão perto como ele, que vivenciou cada gota de chuva, cada onda se quebrando nas rochas e escutar aquele som ensurdecedor, como se tudo estivesse para ser atirado ao longe, agora, admirava aquela água calma e longínqua, como se nunca houvesse existido algo tão vivo e violento naquele mesmo lugar.
Foi-se o vento, foram se as ondas, sem nenhum vestígio. Para ele ficaram apenas as boas lembranças, as fortes emoções e o vento calmo a envolver sua face. Reunia os braços em torno de si como se tentasse receber um abraço invisível como quem recebe alguém muito querido de volta para o lar.
Ele não ia somente para recordar... Ele tinha dentro de si uma esperança de que as noites de fúria voltassem novamente, qualquer dia quem sabe...
Sentava-se em uma pedra, acho que era sempre a mesma, e se perdia por horas, naquele vento batendo em seu rosto. O olhar distante, fixos naquele horizonte calmo, como quem aguardasse um velho reencontro.
Ele não gostava de calmarias. Na verdade, relembrava com saudades aquelas noites de tormenta, nas quais o mar se agitava revolto, invocando um medo aflitivo, denso e imprevisível.
Naquele passado, ficara noites e noites observando e vivenciando uma tempestade incomum naquela costa, na qual as águas vinham com fúria e ali naquele recanto sentia-se como se estivesse à beira de um tsunami.
Era uma loucura, uma vocação, um hobby, qualquer coisa. Para ele era um prazer e normal. Alguns gostavam de filmes de terror, outros de esportes radicais. Tinha fila para montanha-russa, porque não haveria um doido para amar as tempestades.
A verdade é que a tempestade veio, permaneceu por dias e dias e depois se foi. Quem viu de tão perto como ele, que vivenciou cada gota de chuva, cada onda se quebrando nas rochas e escutar aquele som ensurdecedor, como se tudo estivesse para ser atirado ao longe, agora, admirava aquela água calma e longínqua, como se nunca houvesse existido algo tão vivo e violento naquele mesmo lugar.
Foi-se o vento, foram se as ondas, sem nenhum vestígio. Para ele ficaram apenas as boas lembranças, as fortes emoções e o vento calmo a envolver sua face. Reunia os braços em torno de si como se tentasse receber um abraço invisível como quem recebe alguém muito querido de volta para o lar.
Ele não ia somente para recordar... Ele tinha dentro de si uma esperança de que as noites de fúria voltassem novamente, qualquer dia quem sabe...
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